2008/05/13

"Jane Eyre" de Charlotte Brontë e "Wide Sargasso Sea" de Jean Rhys

Há um toque obscuro na literatura vitoriana que me faz vibrar. Sinto-me estremecer por dentro com os anti-heróis já do fim do Romantismo, homens sem glória que se rebelam contra os deuses, contra o destino, contra a sorte.
Assim é Mr. Rochester, o fio de ligação entre estas duas obras. E se em Jane Eyre adquire contornos de vítima da vida e das circunstâncias, pela mão de Jean Rhys torna-se no motor da sua própria desventura, arrastando consigo e para a loucura a primeira mulher, Bertha.
Bertha e Jane têm papéis diferentes nestas duas autoras; enquanto que Jean Rhys faz um exercício de literatura dentro da literatura, agindo como elemento libertador do estigma que persegue Bertha, Jane Eyre aparece como a mulher honrada e digna que não se deixa arrastar pelo "monstro" Rochester. Entre a loucura e a malvadez, a crucificação de Bertha aparece em Brontë como a única saída possível para a resolução do drama.
Porém, Bertha é rebaptizada por Rhys, que lhe chama Antoinette, e acaba ali a sua demonização. A perversão e o vício dessa Jamaica longínqua, terra de bárbaros onde os ocupantes britânicos aparecem como os únicos sinais de pureza apenas manchada pelos brancos-negros (de ascendência inglesa, mas já nascidos entre os nativos), é o trilho da perdição. Da perdição de Rochester, de Bertha e, consequentemente, de Jane, que parece renascer mais de um século depois de ter sido criada por Brontë pela mão de uma mulher já tão longe do seu tempo.
Entre estas duas obras, há eras inteiras de separação. Há duas autoras igualmente conturbadas, dentro do seu tempo: enquanto que Charlotte perece e cede perante as endemias da sua época, Rhys mergulha na penumbra desencantada do início do século XX.
Bertha/Antoinette para Rhys e Jane para Charlotte. Ambas para Rochester. E todos nas mãos do destino.

2008/02/11

"O Deus das Moscas" de William Golding

Sir William Gerald Golding, 1911-93, escritor britânico, nascido na Cornualha, onde morreu.
Assim se introduz este genial autor, que deu ao mundo uma das obras literárias que mais polémica gerou. Talvez uma das mais lidas e debatidas.
Inocência versus maldade inata.
Organização social versus caos e anarquia.
Tentativa de organização social versus desejo de caos e anarquia inerente à condição humana.
Civilização versus animalidade.
Condição humana - eis a chave. Crianças perdidas numa ilha, após um naufrágio, entregues a si próprias. Luta pela sobrevivência, lei do mais forte. Os fios condutores deste livro remontam a Abel e a Caim e são mais antigos que a própria Humanidade. Perturbante? Q. b. Verdadeiramente surpreendente? Apenas se não quisermos realmente aprofundar a ideia de que o bem e o mal estão presentes desde o início dos seres, na base de tudo, como a luz e as trevas, o sol e a lua, o dia e a noite. Uma lei natural, enfim.
O Deus das Moscas, ou Belzebu, surge como um “bode expiatório” inventado pelo Cristianismo para justificar a presença deste lado obscuro e animal da condição humana. Aparece, nesta obra, através da figura de uma cabeça de porco apodrecida, que se enche de moscas e supostamente despoleta a loucura colectiva. Apodrecida como os valores civilizacionais mirrados pela necessidade de sobrevivência de um grupo de seres humanos que tem que viver a qualquer custo, nem que para tal seja necessário passar por cima dos princípios mais básicos da ocidental educação cristã e moralizante.
Que fazer perante isto? Ler e concluir o previsível. Preferencialmente uma edição com melhor tradução que a da Colecção Mil Folhas, que tem partes verdadeiramente incompreensíveis.
Obrigada, InesN, pela gentileza de me teres enviado este livro pelo correio.

“O décimo terceiro conto” de Diane Setterfield

Há muito tempo que não perdia horas de sono por causa de um livro. Aconteceu com este.

Recebi este exemplar de “O décimo terceiro conto” pelo correio, assim inesperadamente e sem aviso prévio, vindo da Lelé. Confesso que desconhecia a obra e a escritora, mas fiquei agarrada desde a primeira página a este registo muito vitoriano, com claras alusões narrativas ao Dickens e às irmãs Bronte. Tenho um particular prazer com este tipo de obras obscuras e densas, com enredos violentos e sombrios e desfechos inesperados.

Em Anglefield há um segredo que apenas uma pessoa parece poder contar: Vida Winter, um nome falso para uma escritora que se criou a si mesma em histórias que se desdobraram em livros de sucesso, mas onde faltava o “décimo terceiro conto” - a sua história. Sentindo que a morte se aproxima, contrata uma biógrafa que, unida a si pelo estranho laço de terem ambas perdido uma irmã gémea, tratará de colocar os fantasmas, os vivos e os mortos, no seu devido lugar, sempre com “A Paixão de Jane Eyre” como fio condutor.

E mais não digo, porque estaria a falar de mais sobre uma obra onde tudo se passa atrás dos reposteiros, atrás de portas fechadas, numa velha casa que perece sob o peso dos seus próprios segredos. Se forem apreciadores do género, leiam.

2007/11/12

"Memorias de mis putas tristes" - Gabriel García Márquez

Li este livro de enfiada, como já não me acontecia desde "Do Amor e Outros Demónios". Não tem a genialidade deste último, mas pode ser uma alegoria perfeita do escritor na velhice, plasmado na personagem principal, que aos 90 anos se apaixona por uma rapariga de 15 que apenas vê adormecida e com ela/através dela (re)constrói a história dos seus desejos perdidos.
Um regresso aos amores pueris, medo da morte, fénix renascida? Não é genial, mas é Gabriel García Márquez e isso diz tudo. A ler no original, porque tem regionalismos deliciosos e que dificilmente poderão ser traduzidos.

2007/10/22

"Eugenia de Montijo" de Almudena de Arteaga

Depois de "La Beltraneja" (já traduzido em português), era difícil que esta nova promessa das letras espanholas se voltasse a superar.
Mas voltou. "Eugenia de Montijo" é um ligeiro e excelente exercício de romance histórico sobre a fogosa espanhola que apaixonou Napoleão III e que, casualidade ou não, é antepassada da autora que, talvez por isso, trata esta figura histórica com especial carinho.
Recomendo a leitura do original, já que Almudena de Arteaga esgrime, como poucos, belíssimos artifícios e expressões literárias "de época".

2007/10/07

Ainda Manuel Alegre...


Quatro letras nos matam quatro facas
que no corpo me gravam o teu nome.
Quatro facas amor com que me matas
sem que eu mate esta sede e esta fome.

Este amor é de guerra. (De arma branca).
Amando ataco amando contra atacas
este amor é de sangue que não estanca.
Quatro letras nos matam quatro facas.

Armado estou de amor. E desarmado.
Morro assaltando morro se me assaltas
E em cada assalto sou assassinado.

Quatro letras amor com que me matas.
E as facas ferem mais quando me faltas.
Quatro letras nos matam quatro facas.

Irritações lusas

Recebo um molhe de revistas portuguesas e vejo como ando desactualizada. Portugal continua a ser um país que me provoca grandes irritações, especialmente a nível da imprensa escrita.
1º - Naquele jornal gratuito que é suposto informar o povinho analfabeto, o Destak, reencontro-me com a editora da minha emb(u)(i)rrância. A Sô Dona Isabel Stillwell volta a largar uma das suas brilhantes pérolas sobre Espanha. Parece que, já que abastecer em Espanha para poupar na gasolina contribui para os índices de poluição desse país, seria um acto patriótico que os portugueses o fizessem. Lembre-se, minha cara, que se a Espanha desaparecesse, Portugal ficava à mercê das vontades fronteiriças dos franceses. Mas, atendendo à manipulação da História que os ingleses tanto gostam de fazer, as invasões napoleónicas devem ser um conceito por si desconhecido.
Esta senhora, há uns anos, fez uma crónica/artigo de opinião/seja lá o que for que ela escreve em que apelidava os espanhóis de arrogantes, mal-educados, gente que grita e sem maneiras. As cartas de resposta foram tantas que a Sô Dona Isabel teve que fazer um pedido de desculpas público. Não se insulta um povo e uma nação gratuitamente sem esperar troco. Se foi a Benidorm e não gostou, na volta deve lá ter estado numa época em que os seus conterrâneos tratam de poluir e vandalizar esta grande nação que deu ao mundo Cervantes e a novela mais perfeita da História da Literatura (não sou eu que digo, são estudos de gente muito mais sapiente).
E, para terminar, deixe-me lembrar-lhe que, enquanto a senhora se queixa de que tem que escrever num papelinho ranhoso enquanto está presa no trânsito a comer com os fumos e a imundice de Lisboa, eu escrevo da zona menos poluída da Europa, com campos debaixo do nariz e uma internet de alta velocidade sem fios a 39 euros por mês. Essa zona chama-se Andaluzia, tem o parque natural mais bem conservado da Europa (Doñana) e faz parte dessa Espanha que lhe provoca urticária, por se estar borrifando para a superioridade anglófona de que a sua gente tanto gosta.
2º - Num suplemento dominical do JN/DN, o Gonçalo Cadilhe quer recriar o percurso de Magalhães e escreve sobre Sevilha. Muito bem. Pena é que fale de Sevilha como uma cidade matreira, onde predominam os assaltos e o tráfico de heroina e não se dê ao trabalho de escrever devidamente os nomes dos monumentos. Sevilha é das cidades mais seguras da Europa. E das mais limpas também. Na calle Bétis, posso andar em segurança às quatro da manhã apenas com uma amiga. Consegue dizer o mesmo do seu Bairro Alto?
Quanto à heroína, engana-se: Espanha é o maior consumidor mundial de cocaína. Que é bem mais chique. E de melhor qualidade que aquela que consegue comprar em Chelas. Mas, se se quiser abastecer, não poderá ir ao dealer em frente à esquadra da Polícia, como no seu bairro: tem que ter juizinho e andar com cuidado, que a criminalidade aqui não compensa.
Deve ser a isso que se refere quando fala dos genes exaltados dos andaluzes e do facto de haver uma placa em Sevilha que exalta a nobreza dos espanhóis que partiram com Magallanes, que o senhor jornalista considera arrogância. Não fosse o dinheiro da Coroa Espanhola e ainda hoje pouco se falava de Descobrimentos. Queria que se exaltassem os feitos de quem, afinal? É este nacionalismo patriótico dos espanhóis que é tão comichoso para os portugueses, não é? Ou haverá uma ponta de invejazinha por aí, senhor Cadilhe (este apelido não me é estranho...)?
Quanto aos monumentos, trata-se dos "Reales Alcazares" e não "Reales de Alcazares", como este senhor escreveu, que não são o monumento mais importante de Sevilha, como ele afirma. Ninguém tira esse posto à catedral. Também não conheço a igreja Santa Maria Triana, mas sim a Esperanza de Triana. O mais engraçado é que qualquer roteiro manhoso ali da terra da Sô Dona Stillwell menciona estes nomes correctamente.
3º - O Verde Eufémia é uma coisa vergonhosa. Porém, quando se permite que uma faculdade seja um centro de trabalho de partidos trotskistas, é isto que se pode esperar. Não sei por que é que se critica tanto as faculdades privadas. Já alguém pôs os olhos em certas e determinadas faculdades públicas? Oscilando entre um nicho de fundamentalistas e o Chapitô, saem de lá vândalos deste calibre. Porém, ninguém se atreve a fazer uma reportagem sobre isto, porque os senhores professores estrelas de televisão não iam gostar e lá se ia o empregozinho a recibo verde no jornal, que em Portugal toda a gente tem amigos.
3º - Não me falem mal do Saramago. Esse sim, tem atitude. Deve ser dos maus genes da sevilhana que o encantou, e que gere a sua obra e o seu património de forma devota. Saramago domina as técnicas narratológicas com a maestria de um Eco. Saramago entrança tramas e enredos, ficções e realidades de uma forma tão sublime que temos que recuar a Aristóteles para compreender estes grandes actos de literatura. Não, Saramago não me apaixona, mas vergo-me perante a sua batuta. Porque literatura não é só ter um amigo numa editora e editar umas palavrinhas que nos vêm do coração. Saramago é um mestre da narratologia. Venha quem vier, o Nobel foi muito bem merecido. E a descasca que o Cavaco está constantemente a levar, também. Porém, camarada Saramago, não podia esperar que a cabecinha numérica do senhor Cavaco ousasse defendê-lo quando se tratou da polémica sobre "O Evangelho segundo Jesus Cristo". É que naquela cabecinha dotada para os números há muita missa e pouca literatura. Mas tu, camarada Saramago, podes dar-te ao luxo de virar as costas a um Presidente. Porque és livre em Lanzarote, porque tu e a tua mulher são Filhos Pródigos da Andaluzia e porque tens o tempo de antena que quiseres no Canal Sur, que até te pôs um estudio de emissão em casa. E porque és dono do Verbo, aquele que está no princípio de tudo.
Saramago, as tuas duas páginas diárias são um elixir que perdurará no tempo. Aqueles que te criticam ficarão nos anais da História apenas até que essa mesma História os esqueça.
E com isto me retiro. Tenho ali um jornal desta semana para ler, com as estatísticas de acidentes relacionados com crianças no Reino Unido, a propósito do caso Maddie. E não, não está escrito em português.

2007/10/04

Manuel Alegre

É com grande contentamento que tomo conhecimento de que "O Homem do País Azul" está incluído no programa de Português do 10º ano. Não basta queixarmo-nos da falta de cultura dos nossos adolescentes: há que mostrar-lhes que o maior património de Portugal não é o cozido à portuguesa ou o Cristino Ronaldo, mas sim os seus poetas.
Este é, sem dúvida, o meu poeta de eleição dentro dos contemporâneos e de língua portuguesa. Encontro em Manuel Alegre a mesma força das palavras, a mesma energia vital, a mesma voz grossa de Ary dos Santos. Talvez a carreira política de Manuel Alegre e a sua clara identificação à esquerda tenham feito dele um poeta maldito, porque o meio literário lusitano lida muito mal com quem toma opções políticas, numa pequenez de espírito que não se vê nos países ditos civilizados em geral (quando Saramago ganhou o Nobel, muito se disse por aí: "AH! Mas ele é comunista!!"). O que é certo é que Portugal não dá o devido valor a este artífice das palavras libertárias, e comete-se a suprema injustiça de silenciar este escritor que sempre lutou por se fazer ouvir.
Uma pena, digo eu. Porém, o tempo e as gerações vindouras encarregar-se-ão de lhe fazer justiça. Digo eu, porque acredito nesta voz poética desde que me deparei com este poema, que de seguida transcrevo, num livro da minha quarta classe.
Manuel Alegre nasceu em 1936 e estudou na Faculdade de Direito de Coimbra, onde participou activamente nas lutas académicas. Cumpriu o serviço militar na guerra colonial em Angola. Nessa altura, foi preso pela polícia política (PIDE) por se revoltar contra a guerra. Após o regresso exilou-se no norte de África, em Argel, onde desenvolveu actividades contra o regime de Salazar. Em 1974 regressou definitivamente a Portugal, demonstrando, nos vários cargos governamentais que tem desempenhado ao longo dos anos, uma intervenção fiel aos ideais da Liberdade.
A sua poesia foi e é um hino à Liberdade e, talvez seja por isso que é lembrada por muitos resistentes que lutaram contra a ditadura. É considerado o poeta mais cantado pelos músicos portugueses, designadamente Adriano Correia de Oliveira, José Afonso, Luís Cília, Manuel Freire, António Portugal, José Niza, António Bernardino, Alain Oulman, Amália Rodrigues, Janita Salomé e João Braga.
As mãos
Com mãos se faz a paz se faz a guerra.
Com mãos tudo se faz e se desfaz.
Com mãos se faz o poema - e são de terra.
Com mãos se faz a guerra - e são a paz.
Com mãos se rasga o mar. Com mãos se lavra.
Não são de pedras estas casas mas
de mãos. E estão no fruto e na palavra
as mãos que são o canto e são as armas.
E cravam-se no Tempo como farpas
as mãos que vês nas coisas transformadas.
Folhas que vão no vento: verdes harpas.
De mãos é cada flor cada cidade.
Ninguém pode vencer estas espadas:
nas tuas mãos começa a liberdade."
"O Canto e as Armas", 1967

2007/09/08

"Essa Luz!" - Carlos Saura

Que Carlos Saura era "o" cineasta por excelência da espanholidade, isso eu sabia, por acompanhar muito a sua carreira. Que também escreve com bastante fluidez e originalidade, fiquei a saber com esta obra, de uma grande sensibilidade e rigor histórico.
Teresa e Diego são um casal de esquerda que se separado pela Guerra Civil. Diego, jornalista, não consegue reunir-se à mulher e à filha em Zaragoza, onde estas se escondem, na casa da família de Teresa. Atraiçoada pela irmã falangista, Teresa vive as mesmas consequências de muitos espanhóis que se recusaram a cantar o "Cara al sol".

Uma leitura muito interessante, sem dúvida, especialmente neste momento de edição do álbum "Fado", banda sonora do filme realizado pelo mesmo Saura sobre a canção portuguesa.